domingo, 31 de agosto de 2014

Pano de fundo.

Tomei conhecimento dessa história tem coisa de um ano, mais ou menos: uma moça, hoje uma moça, mas sua história começa bem antes disso, ainda adolescente. Filha de pessoas conhecidas e queridas, estudou nós melhores colégios daqui, aliás, junto com meus filhos, e prima de uma pessoa da família. Foi na adolescência que teve contato com as drogas; história corriqueira e que engrossa as estatísticas, foi junto com os colegas, todos do seu nível social e econômico, que experimentou. Como ela mesma disse num desabafo desesperado: "todos usamos porque só eu fiquei assim?" Sua trajetória de idas e saídas de clínicas de recuperação e longa, triste, contumaz e desesperadora para seus pais. No meio desse caminho teve dois filhos, hoje criados por seus pais. Ela resolveu que queria morar na rua. Foi ser moradora de rua, ninguém conseguia trazê-la de volta, todas, mas todas mesmo que se possa imaginar, foram tentadas. Nada feito...o demônio do crack já tinha tomado o seu lugar. Dormia nas calçadas, revirava lixo para comer, virou a típica moradora de rua: magra, a sujeira da rua já estava impregnada nela, ficou cinzenta, sem cor e perambulava a cidade inteira. Seus pais desistiram. Só muito sofrimento leva a isso! Sob a vista de todos víamos aquele farrapo humano andando e dormindo e comendo lixo e se drogando. Numa dormida na calçada um ex colega de turma a viu e em meio ao cinza e a magreza, descobriu sua antiga colega de escola. O choque e a tristeza o deixou paralisado. Paralelo a esses episódio , talvez num ultimo e desesperado gesto de lucidez - prefiro achar que Jesus a pegou pela mão - ela foi atrás do primo em seu trabalho, foi tratada com desconfiança, mas acolhida numa ultima e desesperada tentativa, ela aceitou, com alguma relutância em vista de algumas exigências estipuladas. Nesse ínterim o colega que a viu na rua, ligou p o primo e toda história foi contada. Resolveram juntos e com a ajuda de uma moça, que passa por sofrimento parecido na família, aliás, essa moça merece um comentário: movida a alegria, solidariedade, compromisso e força, admiro ela! Então o primo e alguns colegas de escola se mobilizaram para ajudá-la. Ela só aceitou com a condição de que seu companheiro de rua e drogas fosse junto. Fez parte do pacote. Um caminho longo foi percorrido até chegarem a uma comunidade de daime existente muito afastada da cidade. E lá estão há um mês. Fui conhecer a comunidade e seus integrantes. São miseráveis sendo apoiados por outros miseráveis. E uma comunidade pequena, 24 casais, com uma precária administração, pobre, muito pobre, cada casal tem seu barraco e cuida muito bem, passam fome as vezes, vivem de doações e da venda de castanhas nos sinais da cidade. Ali ninguém e obrigada ficar, fica quem quer, o portão e aberto; mas eles ficam. Alguns não! Tomam daime, substituem uma droga pesada por uma mais leve! Lá não há o glamour das comunidades onde se prática essa doutrina com pessoas intelectualizadas e engajadas numa pseudo história de que o daime e a luz para o aperfeiçoamento e conhecimento humano e blá, blá, blá. Tudo balela e droga sim ! Comprovada cientificamente, alucinógeno, o LSD da floresta. Mas e lá no meio do mato, sem glamour, com um pouco de disciplina, um pouco de autoridade, sem nenhuma interferência terapêutica, sem ajuda médica, as vezes sem comida, contando tão somente com a caridade de alguns, que aqueles pobres estão se ajudando, tentando vencer este demônio, se é com a ajuda do daime, que seja então! Fiquei impressionada com a pobreza e a miséria jogada assim sem nenhum filtro na minha cara. Sai de la querendo fazer muito. Não e assim, com eles tem que ser aos poucos. O primo, o grupo de ex colegas e essa moça estão conduzindo muito bem. Essa semana conseguiram tinta p eles pintarem seus barracos. E as doações são levadas todo sábado. Fez um mês que ela está lá, até ligou para a mãe !

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Foi embora...

Não estava aqui quando ela se foi. Não me despedi dela, não deu tempo. Chorei sua partida sozinha, como sozinha gosto de ficar quando preciso sofrer e chorar. Ainda sinto sua falta. Quando comecei a escrever, senti um arrepio e um turbilhão de lembranças misturadas a uma emoção muito forte. Nossas linhas se entrelaçaram por uma vida inteira, nossos filhos não são somente primos são irmãos, foram todos criados juntos. Era uma pessoa muito diferente de mim, mas mesmo assim nós entendíamos, conseguíamos passar férias todos juntos, num tempo tão remoto, que a gente só lembra nas fotos, são muitas, fotos e férias. Nos altos e baixos da vida, nem sempre estávamos perto uma da outra, mas sempre fomos solidárias e sempre sabíamos o que estava se passando nas vidas de cada uma. Quando voltei a primeira casa que fui foi a sua, sentamos na mesa de café, fumamos nossos cigarros e conversamos até...era uma pessoa muito peculiar, muito honesta com o que acreditava ser o certo para ela, muito embora não fosse consenso, pouco se importava, ela pensava assim e pronto! Não concordar com seu modo de vida, sua maneira de pensar, não lhe tirava o sono. Viveu a sua vida! Educou seus filhos muito bem: são pessoas da melhor qualidade! Viveu com seu companheiro uma vida inteira, do jeito deles e até foram felizes, hoje ele está sem ela igual um "papelim" de tão frágil! Ela era forte e ele nem sabia! Quero muito que ela esteja num lugar bom. Ainda vou chorar a sua falta, cada vez menos, mas vou chorar. Já acordei pensando " vou tomar um café e fumar um cigarro com..." Dai lembro que ela não está mais aqui, já foi! E possível continuar gostando muito de quem não está mais aqui? E sim! Vou gostar dela para sempre.

Deus mora nos detalhes.

Quando começo a escrever e apago várias vezes e porque as idéias estão tão embaralhadas, mas tão embaralhadas...que apago mais uma vez e começo de novo! Dai e um sem fim de não saber o que dizer, o que escrever, trava e nada sai. Você diz: ora, então para de encher o saco e não escreve! Então vou começar de uns tempos idos, não tão idos assim, próximo, tão próximo que lembro de tudo. Minhas casas (lá vem ela falar das casas), coloquei de pé Outra casa sim! Nem esquentei lugar...e tive que partir ( não, não desmanchei esta, ainda), fiquei 6 meses fora. O motivo? Doença. Nada grave, mas sério, algo a ser tratado. E foi. Ajuda? Tive muitas, de Deus, e de todos os instrumentos que ele bota nessa vida. Desses "instrumentos", ainda falaremos muito! Tem escrita que não acaba mais! Mas estou de volta, começando me ambientar nessa casa tão nova, tão estranha, tão sem história. Terei que fazer uma para ela, preciso me inserir dentro de uma história com essa minha nova casa! Olhar para os cantinhos dela e me lembrar de algo bom, ou não tão bom. Ela e eu precisamos começar a escrever isso. Detalhes...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ainda está valendo.

Há muito não escrevo, mas confesso que senti falta, mas os escritos que queria fazer...que preguiça! Então, vamos lá. Desmanchei mais uma casa, tirei tudo, limpei, expurguei, ficou vazia e mais uma vez olhei o espaço que habitava sem nada que lembrasse a minha passagem por la, fechei a porta passei a chave entreguei para a nova dona e parti para montar mais uma casa! Olhei aquele novo pedaço de teto, com medo, insegurança, e me senti muito, mas muito só. Tão só, que fiz o que faço sempre que me sinto sem eira nem beira, começo tudo outra vez, enchi de pedreiros, carpinteiros, marceneiros, pintores e refiz tudo do meu jeito, cada pedaço dessa nova casa tinha que ter uma identidade, e vamos la montar de novo uma nova casa! Será a ultima? Já nem digo mais nada. Freud explica isso tenho certeza. Olhando lá no fundo, bem lá no fundo, tenho um problema sério com as minhas casas, primeiro foi a casa em que cresci e meu pai a tirou de minha mãe, e eu foi a reboque para uma que nem assoalho tinha, era terra batida, não entendi nada. Quando passava na frente da dita casa, que não era mais minha, a pergunta vinha: porque? Esta resposta só me foi dada 18 anos depois, enfim... Outra casa fundamental para a minha sanidade foi a que construí com meu ex marido, aquela casa representava o meu porto seguro, meus filhos nasceram nela, para mim ela era indestrutível, não o concreto e tijolo, mas o laço forte que me unia a ela, engraçado você se sentir unida a uma casa como se fosse um cordão umbilical, mas era assim que me sentia em relação a ela. Quando dela saí, e este cordão se rompeu de forma abrupta, tive a mais absoluta das certezas, nunca mais me sentirei em casa. Aí e que entra Freud, até hoje sonho andando, perambulando e percorrendo os caminhos dessas duas casas. Minha nova casa ficou pronta, estou nela, sinto e gosto dela, preciso criar laços e afetos com ela. Vou criar!

domingo, 6 de outubro de 2013

Poesia do viver.

A escrita de hoje vai para você, que me lê e parece que gosta. Também quero voltar a escrever, com leveza, com felicidade, mas como você mesma diz ta brabo meio que travei, e tenho tanto para dizer, tanto aconteceu, Tanto mais vivi, tanto mais chorei e tanto mais gargalhei. Quero de novo ter como dizer! E você menina, voltou? E com sua volta não posso deixar de lembrar de você criança, junto com meus filhos, quando queria maquiar você, e claro você resistente em se tornar vaidosa, resistente em soltar o cabelo sempre preso, na verdade já estava maquiada e de cabelo solto ao vento, seus caracóis ao leu, e deu nisso:puro talento para a alegria, poesia ambulante e sonhadora, sorriso franco e aberto, escancarado para a vida, foi voltou, foi de novo e aqui está. Você e assim mesmo, menina, uma linha bem esticada feita da mais preciosa seda, fina e resistente. Gosto de você de uma forma transcendental, etérea e definitiva. Que bom que voltou! Minhas filhas e meus netos agradecem sua presença. E eu também, minha filha postiça está entre nos. Que bom! Sei de você e de seus passos, torço por todos eles, vá atrás da felicidade, onde ela estiver, aqui ou acolá. Beijos querida!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Conteúdo...como assim?

Descobri num tradicional almoco de domingo de páscoa, entre filhos, amigos, genro e netos que tenho conteúdo! Para que serve um ser com conteúdo? E o que será que um ser desses faz? Penso que em princípio observa, observa com olhos de ver e as vezes com olhos de não enxergar. Guarda na memória as melhores fotos e fatos do cotidiano. Palpita daqui, palpita dali e acaba palpitando demais...é o que dá ter o tal conteúdo, que aliás combina num trocadilho infame com: abelhudo! Mas quem disse também tem conteúdo. Ah! Então você sabe sim o que é o talzinho? Sei sim. Um ser com sensibilidade, vivência, lembrancas, passado, presente, futuro incerto, algumas letras na cabeca, amores, desamores, saudades, expectativas, e por ai vai...É, quase todo mundo é assim! Quero me agarrar nesse comentário tão sem compromisso e ver se acho a minha linha solta por algum tempo e torno a escrever meus desabafos e escritos, também sem compromisso algum. Mas que ter conteúdo é muito perigoso, lá isto é, vai saber o que se faz com tudo isso! Vai que você bota tudo para fora e fica vazia!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Personagem da vida .

De muito ela instiga minha curiosidade. Uma mulher na faixa dos seus 40 anos, vaidosa, pobre, mãe de 4 filhas e um filho, dois netos, trabalha muito, sonha muito, namora muito e cuida, com dificuldade, proteger sua prole. Gosto demais de conversar com ela e conversa vai e conversa vem fiquei sabendo um pouco de sua vida. Casou muito jovem, teve filhos, um por ano, moravam numa fazenda, ela, marido e os filhos, o marido tomava conta do gado do patrão, ela cuidava do resto. Que resto? Da casa, dos animais menores, lavava, cozinhava para todos da fazenda, da horta, dos filhos, e quando necessário subia num cavalo e ajudava o marido a tanger os bois, assim era o seu dia a dia, sem mudancas, sem novidades e sem alternativas de ser diferente. Tinha sim uma diferenca de cotidiano, era quando o marido, aos domingo, saia para beber com os amigos e chegava em casa bêbado e enchia ela de porrada, bastava pouca coisa, as vezes ela nem sabia porque apanhava! O patrão, homem rico da cidade, sabia mas não fazia nada, nem ele nem ninguem...e ela seguia, trabalhando, parindo e apanhando. Até um dia em que a morte esteve muito perto, resolveu que era hora de catar os filhos, se mandar para a cidade e comecar uma nova vida! Não tinha teto. Foi parar na casa de conhecidos, ela e o monte de filhos. Arrumou emprego de doméstica e um barraco para ela e os filhos. História comum, comum de doer de realidade! Mas tem mais...